Membresia Bíblica da Igreja

Qual é a relação entre a membresia da igreja, o batismo e a ceia do Senhor?

Artigo
08.09.2026

Qual é a relação entre a membresia da igreja, o batismo e a ceia do Senhor?

Em uma frase, essas três realidades se relacionam como uma coisa, um sinal de entrada dessa coisa e um sinal contínuo dessa mesma coisa. Embora não seja uma analogia perfeita, podemos pensar em cidadania (uma coisa), uma certidão de nascimento (um sinal de entrada da coisa) e um passaporte (um sinal contínuo da coisa). Ou pense na membresia em um time, assinar o contrato e vestir a camisa.

Exploremos um pouco mais a analogia da cidadania. Ela nos ajuda a ver que as três coisas funcionam juntas e deveriam, normalmente, permanecer juntas. Você não tornaria alguém cidadão sem lhe dar um sinal de cidadania; e não daria a alguém um sinal de cidadania sem torná-lo um cidadão.

Para os meus leitores mais criteriosos, a analogia certamente é imperfeita. O tema da membresia da igreja precisa levar em conta a dinâmica entre a nossa membresia na igreja universal e invisível e a nossa membresia em uma igreja local visível. Isso complica um pouco as coisas. Além disso, existem várias exceções em ambos os lados da analogia. Por um lado, nem todo cidadão recebe um passaporte. Por outro, nem todo batismo ocorre em uma igreja (ex.: o eunuco etíope).

Tudo bem, tudo bem.

Ainda assim, o ponto permanece: essas três coisas normalmente andam juntas porque realizam um trabalho conjunto. Então, nosso objetivo aqui é compreender as regras antes de considerarmos as exceções. Faremos isso considerando o que são a membresia, o batismo e a ceia, para que possamos ver como funcionam em conjunto.

O que é a membresia da igreja?

Primeiro, o que é a membresia da igreja? É um acordo semelhante a uma aliança entre uma igreja (todos os membros) e um cristão individual — entre os muitos e o um. Os muitos afirmam a profissão de fé do um. Eles também concordam em supervisionar o discipulado dessa pessoa. E o um se submete à afirmação e à supervisão dos muitos.

Não vou tomar tempo para desenvolver todo o argumento aqui, mas creio que Jesus estabelece esses termos em Mateus 16.19 e 18.15-20. O acordo que ele menciona em 18.19 é um acordo de ligar ou desligar. É um acordo com “cola” judicial (veja os vv. 16 e 18). É por isso que eu chamaria a membresia de aliança ou — para quem tem medo dessa palavra — “semelhante a uma aliança” (mas lembre-se de que o rótulo não muda o conteúdo).

Esse acordo “semelhante a uma aliança” da membresia é a forma pela qual uma igreja se apresenta diante dos cidadãos das nações terrenas e identifica publicamente uma pessoa como cidadão da nação celestial: “Este é um dos nossos!” O cidadão celestial, por sua vez, concorda em viver sua cidadania celestial dentro e por meio dessa embaixada do céu, ou seja, a igreja.

Como, então, as igrejas — essas embaixadas do céu — fazem tais declarações judicialmente vinculantes?

O que é o batismo?

Elas começam batizando a pessoa “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). O batismo concede a alguém um crachá de identificação que declara: “Estou com Jesus”.

Normalmente, batistas — como eu — definem o batismo como a pública profissão de arrependimento para com Deus e fé em Jesus Cristo, que é realizada por um indivíduo. No entanto, o batismo é um ato tanto individual quanto corporativo. Duas partes pronunciam algo — o um e os muitos. Tanto quem é batizado quanto quem batiza declaram algo. Além de ser a profissão de um indivíduo, é também a afirmação de uma igreja dessa profissão.

Em outras palavras, o batismo é a maneira pela qual a igreja e o indivíduo, inicialmente, assinam e selam o acordo “semelhante a uma aliança” da membresia.

“Que faremos, irmãos?”, perguntou a multidão convicta em Jerusalém a Pedro (At 2.37). “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”, respondeu ele (At 2.38). Em seguida, lemos: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (At 2.41). Acréscimo a quê? À igreja em Jerusalém.

Cristo deseja que as pessoas respondam à mensagem do evangelho interiormente com arrependimento e exteriormente com o batismo. E, normalmente, ele deseja que sejamos batizados para ingressar na membresia de uma igreja, como foi o caso em Jerusalém.

“Mas Atos 2 nada diz sobre membresia!”, alguém pode argumentar. Você está perdendo o ponto principal. O ponto é que “eles” sabiam quem eram “eles”. Eram aquelas três mil almas, identificadas em contraste com o restante da população de Jerusalém. Aquelas três mil pessoas — vamos dar-lhes nomes: Frederico, Bruno, Alice etc. — são “nós”. Esses são os membros da igreja em Jerusalém.

Como, então, reconhecemos os membros de forma contínua? E se alguns se afastarem e começarem a viver segundo o mundo?

O que é a ceia do Senhor?

Isso nos leva à ceia do Senhor. Se o batismo é a certidão de nascimento, a ceia é o passaporte. Se o batismo é o contrato assinado, a ceia é a camisa do time. Se o batismo é a porta de entrada para a membresia da igreja, a ceia do Senhor é a refeição familiar recorrente dos seus membros.

É por isso que muitas declarações históricas de fé batistas afirmam: “O batismo é pré-requisito para os privilégios da membresia da igreja e da Ceia do Senhor”.

O ponto-chave aqui é que se trata de uma refeição familiar. A ceia não é um momento devocional turbinado entre você e Jesus, que por acaso ocorre em uma sala repleta de pessoas. Não é um evento de olhos fechados. É um evento de olhos abertos, de olhar para os seus irmãos e irmãs ao redor. Ouça Paulo: “Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co 10.17; veja também 11.29, 33). Participar do único pão revela, mostra ou ilumina quem pertence ao único corpo.

A ceia é uma reveladora da igreja. Ela lança um facho de luz sobre a igreja e declara: “Aqui, ó mundo, está a igreja”. Ela torna visível a igreja invisível.

Portanto, ao estabelecer uma nova igreja, participar da ceia — junto com a pregação da Palavra — é a coisa mais importante que podemos fazer. Foi isso que minha igreja — Cheverly Baptist — fez para se tornar uma igreja. Antes de participarmos da ceia, éramos um grupo de cristãos. Quando participamos da ceia — pronto! — tornamo-nos uma igreja.

Para todos os plantadores de igrejas que ainda chamam sua igreja de “plantação”, adivinhem: se vocês têm participado da ceia, vocês são uma igreja. Parabéns! Agora vocês são uma igreja de fato.

Como as três coisas funcionam juntas?

A membresia, o batismo e a ceia funcionam juntos para fazer a mesma coisa: identificar ou designar os cidadãos do reino de Cristo. São os meios práticos, concretos e localizados pelos quais afirmamos a membresia na igreja invisível e universal de Cristo.

O batismo e a ceia são os sinais e os selos da membresia da igreja. São sinais no sentido de que a tornam visível. São selos no sentido de que a confirmam formal ou oficialmente. Eles são os mecanismos que Deus deu aos cristãos para “fecharem o acordo” ou “selarem a carta” dos cidadãos de seu reino.

Consequentemente, essas três coisas caminham normalmente juntas. Não admita alguém como membro sem batizá-lo e sem lhe ministrar a ceia. E não ministre a ceia a quem não foi batizado. E não batize alguém se não vai integrá-lo à membresia. As três coisas normalmente formam um pacote fechado, porque fazem a mesma coisa: afirmar a cidadania de alguém no céu e a sua membresia no corpo de Cristo.

Uma breve nota sobre a certeza da salvação e a disciplina eclesiástica

O cristianismo não é uma religião individualista na qual a coisa mais importante sobre nós é como nos vemos subjetivamente. Pelo contrário, é a religião de um povo no qual a coisa mais importante sobre nós é o que realmente somos; e Deus usa tanto as nossas impressões internas de nós mesmos quanto as afirmações externas de outras pessoas para nos dar uma leitura mais precisa do que realmente somos.

Assim, Deus utiliza as declarações afirmativas do batismo e da ceia tanto para estabelecer nossa membresia em uma igreja quanto para proporcionar certeza da salvação. Os católicos romanos correm o risco de tornar isso algo inteiramente objetivo por meio da participação mecânica nos sacramentos (“ele se confessou e recebeu a eucaristia”). Evangélicos que não frequentam uma igreja correm o risco de tornar a questão inteiramente individual e subjetiva (“será que eu considero que confio o suficiente em Cristo?”). No entanto, uma visão correta da certeza da salvação é parcialmente individual e subjetiva e parcialmente corporativa e objetiva. Há um papel para a sua consciência e um papel para a sua igreja.

A disciplina eclesiástica, portanto, ocorre quando uma igreja já não pode mais afirmar a profissão de fé de um indivíduo devido ao pecado impenitente. Nessa situação, a igreja exclui a pessoa da membresia na igreja e da participação na Mesa.

E quanto às exceções?

Um último comentário: por que eu afirmei que essas três coisas normalmente andam juntas? Por que não “sempre”?

Em uma religião missionária, na qual evangelistas e missionários avançam para novos territórios, exceções devem ocorrer. Extraio isso de algumas passagens do Novo Testamento: não havia igreja no deserto para batizar o eunuco etíope, tampouco em Tiatira quando Paulo batizou Lídia. Portanto, nem o eunuco nem Lídia foram batizados por uma igreja ou para ingressarem na membresia de uma igreja. Ambos foram os primeiros.

Contudo, tais situações são extraordinárias. Os batismos das três mil pessoas em Jerusalém — e, presumivelmente, de todos depois do eunuco e de Lídia — representam o padrão ordinário.

Na prática, portanto, as igrejas raramente deveriam batizar alguém sem adicioná-lo à membresia. Tampouco deveriam, de forma geral, ministrar a ceia a quem não foi batizado. Exceções existem, mas só existem porque confirmam as regras gerais estabelecidas pelo Novo Testamento.

 

Original: https://www.9marks.org/article/what-is-the-relationship-between-church-membership-baptism-and-the-lords-supper/

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