Disciplina

Por que disciplinamos metade da nossa igreja?

Por Mark Dever

​Mark Dever é o pastor da Capitol Hill Baptist Church em Washignton, D. C. e presidente do 9Marks.
Artigo
06.03.2019

Nós perdemos algo importante se membresia eclesiástica perde o significado

Na assembleia de membros da nossa igreja em maio de 1996, enfrentamos uma assustadora tarefa. Cerca de sessenta de nós precisamos passar por uma lista de 256 nomes — mais da metade da nossa membresia — e removê-los do rol da nossa igreja.

Nós havíamos trabalhado nisso por meses. Alguns sugeriram que eu simplesmente fizesse uma moção para dispensar todas as pessoas de uma vez. Eu decidi não fazer isso. Nós os havíamos recebido individualmente; nós os dispensaríamos individualmente. Seria uma espécie de tortura chinesa por um bom fim. Seríamos todos lembrados da importância da membresia eclesiástica.

O primeiro desafio chegou quando, nos primeiros nomes, havia um par de meninos gêmeos que haviam sido criados na igreja — trinta anos atrás! Um dos membros mais antigos levantou a mão e disse: “Mas nós sabemos onde estão esses meninos!”

Creio que o Espírito de Deus levantou especialmente nosso presidente do corpo diaconal, que respondeu calmamente com um leve toque de humor: “O problema não é não sabermos onde eles estão, mas que eles parecem não saber onde nós estamos”.

Silêncio por um momento. Depois brandas risadas.

Com o bloqueio removido, estávamos livres para continuar pela lista removendo da membresia até mesmo filhos e netos daqueles que se assentavam na assembleia. Aqueles que eram perfeitamente capazes de comparecer, sem fazê-lo por meses — até mesmo anos — nós removemos.

Eu me dei a todo esse trabalho naquela noite, e ao longo do processo, para enfatizar que o que estávamos fazendo não queria dizer que não amávamos aquelas pessoas. Não queria dizer que elas não eram bem-vindas aqui. Não havia lugar no mundo onde amaríamos mais vê-los do que de volta à igreja conosco. Isso não significava que pensávamos que eles não estavam indo à igreja em lugar nenhum. Nós só sabíamos que eles não estavam vindo à igreja aqui.

O que significa membresia?

Membresia eclesiástica é a nossa concordância pública e coletiva de que uma pessoa está vivendo como um discípulo de Jesus. Nós não podíamos dar esse testemunho, realisticamente, de uma pessoa que não víamos regularmente.

Nós trabalhamos por meses para contatar cada membro por telefone e por carta. Alguns nós simplesmente não conseguimos encontrar. Na carta, nós pedimos que os membros da igreja subscrevessem à declaração de fé e ao pacto de igreja.

Nós os informamos que se eles não estivessem presentes regularmente e se não subscrevessem e devolvessem a declaração e o pacto, seria recomendado à congregação que seus nomes fossem removidos do rol de membros.

Nossas cartas produziram todo tipo de respostas. Algumas pessoas estavam alegremente ativas em outras igrejas; algumas não estavam frequentando igreja alguma. Nós descobrimos que dez dos nossos membros haviam falecido. Um membro havia se tornado Unitariano e não gostou de ser contatado.

Por que fizemos isso?

1. Por amor aos ausentes. Se eles fossem membros em outro lugar e isso nunca fora informado a nós, então estávamos simplesmente corrigindo os nossos registros. Se não estavam frequentando igreja alguma ou frequentavam alguma igreja não-evangélica, então tinham que ser lembrados do evangelho que uma vez afirmaram e dos compromissos que uma vez mantiveram. Uma senhora querida não comparecia há 20 anos (embora vivesse nas proximidades) me falou de suas lutas. Após ser assegurada de que seria bem-vinda, ela se uniu a nós novamente aos domingos.

2. Por amor àqueles que frequentam a igreja regularmente. Eles precisam ser lembrados da seriedade com que Cristo trata a igreja e da importância, portanto, da sua participação. O Novo Testamento adverte os cristãos a não deixarem de se reunir (Hb 10.24-25). Paulo escreveu suas cartas presumindo que cristãos estariam presentes e ativos em suas igrejas locais, usando figuras da igreja como um prédio e uma família.

Talvez sua figura mais famosa é a igreja como um corpo, o corpo de Cristo. E de onde Paulo tira essa ideia maravilhosa? Penso que ele viu isso no caminho para Damasco. Em Atos 9, quando ele é derrubado pela aparição do Cristo Ressurreto, Jesus não disse a ele: “Saulo, Saulo, por que você está indo perseguir cristãos?” mas disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Foi Jesus Cristo que ensinou a Paulo que a igreja em Damasco era o seu corpo.

3. Pela saúde da igreja coletivamente. Não é bom para uma congregação ter metade de seus membros desaparecidos. Isso é enganoso e perigoso. Ausência não verificada comunica uma mensagem errônea sobre o que significa ser um membro do corpo.

Paulo clama (1Co 5) que Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi morto, e que tudo o que se precisa para completar o banquete é que nós sejamos o pão não-levedado; o pão que não foi corrompido pela tolerância de pecados impenitentes. Não é o homem adúltero que Paulo repreende aqui; é a igreja que tolera o seu pecado, mima o seu autoengano permitindo, assim, que o nome de Cristo seja blasfemado.

Eu estava preocupado de estarmos mentindo a respeito de Deus. Como poderíamos enviar pessoas para compartilhar as Boas Novas do perdão e da nova vida só para ter outros “membros” desfazendo o nosso testemunho?

O membro A está falando sobre a nova vida em Cristo enquanto o membro B é conhecido por não ir à igreja, por ser ganancioso, corrupto ou imoral, e ainda assim em paz com a sua igreja?

A disciplina eclesiástica praticada apropriadamente é uma das mais poderosas ferramentas evangelísticas que Deus nos deu. Ela ajuda a realçar a natureza da verdadeira conversão, o evangelho de Jesus Cristo e a urgência das questões envolvidas. Ela ajuda a revelar a igreja como a poderosa testemunha que Jesus intentava que ela fosse quando disse aos discípulos em João 13 que o mundo saberia que eles eram seus discípulos pelo amor que eles tinham uns pelos outros.

4. Por amor à glória de Deus. Não devemos mentir sobre Deus ou apresentá-lo erroneamente com as nossas vidas. Podemos tomar seu nome em vão com as nossas palavras ou com as nossas vidas quando afirmamos pertencer a ele, mas vivemos como se não pertencêssemos.

Antes dessa congregação me convocar como pastor, eu estive diante dela e respondi perguntas. Uma pergunta era a respeito de certos tipos de evangelismos que eu achava que tendiam a produzir falsas conversões. Eu disse à congregação que se eu viesse a ser seu pastor, em última análise, não estaria trabalhando para eles, mas para Deus. No fim dos tempos eu estarei diante de Deus para dar conta do meu ministério.

Naquele grande dia, eu disse, eu não tenho a menor intenção de estar diante dele segurando as mãos das 300 pessoas que eu nunca vi na igreja, mas ainda assim, o registro indicando a igreja pela qual eu era responsável, as listava entre os fiéis. Eu disse a eles que qualquer tipo de evangelismo que tende a produzir pessoas que toma sua salvação por garantida enquanto não estão envolvidas na vida da congregação, é prejudicial à propagação do evangelho e potencialmente perigoso para elas e para a congregação.

É claro, essa discussão deve levantar perguntas sobre muitas coisas, não sendo a menor delas como garantimos a salvação das pessoas com uma pequena evidência.

Ela também deve fazer com que muitos de nós reexaminemos nossa maneira de aceitar novos membros. Nós nos certificamos de que eles conhecem o evangelho? Nós tomamos tempo para ouvir os seus testemunhos e observar as suas vidas? Nossa congregação faz tudo isso agora, e por causa disso, confiamos que nunca teremos que disciplinar metade dos nossos membros novamente.

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