Liderança

Como Minha Mente Mudou: A Centralidade da Congregação

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10.19.2014

Desde que me tornei um cristão no Ensino Médio, o papel da congregação local tem sido importante para mim. Eu me lembro de gastar algumas (tudo bem, muitas) horas, no meu primeiro verão após tornar-me cristão, na biblioteca da minha igreja, compilando estatísticas acerca da crescente membresia de nossa igreja, e comparando-as em uma tabela com nossa frequência cada vez menor aos cultos.  O gráfico que fiz a partir de minha pesquisa, naquela era pré-computador, era um simples quadro em um cartaz, com linhas cuidadosamente desenhadas para a membresia e a freqüência, que divergiam notadamente em algum lugar nos anos 1940 ou 1950. Embora eu tenha gastado horas e horas naquele cartaz – e nos diagramas por trás dele –, ele ocupava apenas o mais limitado dos espaços em uma proeminente parede em nossa igreja. Eu o afixei sem autorização (não havia levado isso em consideração). Devida e rapidamente autorizada, contudo, foi a sua retirada.

À medida que eu crescia como cristão, e meu entendimento da graça de Deus aumentava durante meus anos de graduação e de seminário, minha preocupação com o nominalismo na igreja também crescia. Muitas ditas “conversões” pareciam obviamente falsas para mim. E eu me tornei cada vez mais desconfiado do evangelismo que havia gerado esses diagramas inflados e, mais importante, essas pessoas ao mesmo tempo tão seguras e tão inativas.

Durante meu doutorado, contudo, cerca de dez anos atrás, minha mente começou a concentrar-se ainda mais no tema da igreja, especialmente na centralidade da congregação local. Eu me lembro, certo dia, de ter uma discordância com um amigo que trabalhava em um ministério paraeclesiástico. Ele e eu freqüentávamos a mesma igreja. Eu havia me tornado membro desde que me mudara para a cidade; ele, dois anos depois, havia escolhido meramente freqüentar. E, mesmo assim, ele vinha apenas para o culto da manhã, e apenas na metade dele, quando era o momento do sermão. Então, um dia, eu decidi questioná-lo acerca disso.

Ele respondeu com sua costumeira honestidade e transparência. “Na verdade, eu não tenho nenhum prazer no resto do culto”, ele disse. “Você já pensou em tornar-se membro da igreja?”, eu perguntei. Genuinamente surpreso, com um cacarejo inocente ele respondeu: “Tornar-me membro da igreja? Eu honestamente não sei por que faria isso. Eu sei para que estou aqui, e essas pessoas simplesmente me desacelerariam”. Essas palavras soam frias quando as leio, mas elas foram proferidas com o fervor típico, genuíno e humilde de um evangelista cheio de dons que não queria desperdiçar uma hora do tempo do Senhor. Ele queria dispor seu tempo para o melhor uso possível, e todas as preocupações e incômodos envolvidos em tornar-se oficialmente membro de uma igreja faziam aquilo parecer de todo irrelevante.

“Desacelerar” – suas palavras reverberavam em minha mente. “Desacelerar”. Vários pensamentos competiam em minha mente, mas tudo o que eu havia dito era uma simples pergunta – “Mas você já pensou que, se der os braços a essas pessoas, sim, elas podem desacelerá-lo, mas você pode ajudar a acelerá-las? Você já pensou que isso pode ser parte do plano de Deus para elas, e para você?”. A conversa continuou, mas a porção crucial e decisiva para o meu próprio pensamento era essa. Deus deseja nos usar na vida uns dos outros – mesmo quando isso aparentemente implicar um custo espiritual para nós.

Ao mesmo tempo, meus estudos sobre o puritanismo estavam me dando a oportunidade de ler o desenvolvimento dos debates teológicos acerca do governo eclesiástico no período elizabetano e no início da dinastia Stuart. O Grande Debate na Assembléia de Westminster era particularmente interessante para mim. Atraía-me a afirmação de alguns dos “independentes” ou “congregacionais” de que, em essência, a autoridade pastoral está vinculada ao relacionamento pastoral. Os seus argumentos de que a congregação local seria também a última instância em termos de disciplina e doutrina pareciam biblicamente persuasivas (ver Mt 18.17; 1Co 5; 2Co 2; Gl; 2Tm 4). Os papéis tanto do pastor como da congregação pareciam adquirir uma nova importância para mim em termos de como o cristão comum deve viver a vida cristã.

Então, em 1994, eu me tornei pastor principal. Embora eu sempre houvesse respeitado o ofício de presbítero e já houvesse servido em duas igrejas como presbítero, assumir o papel do único presbítero reconhecido em uma congregação me levou a refletir mais (e mais perto das origens) acerca da importância do ofício. Textos como Tiago 3.1 (“havemos de receber maior juízo”) e Hebreus 13.17 (“deve prestar contas”) permaneciam com freqüência em minha mente. As circunstâncias conspiraram para enfatizar a mim a importância que Deus atribui à igreja local. Eu me lembro de ler uma citação de John Brown, que, em uma carta com conselhos paternais a um de seus pupilos recém ordenado para uma pequena congregação, escreveu: “Eu conheço a vaidade do seu coração, e que você se sentirá mortificado por sua congregação ser muito pequena, em comparação àquelas de seus irmãos à sua volta; mas apegue-se à palavra de um velho homem: quando você apresentar-se para prestar contas dela ao Senhor Cristo, em seu trono de julgamento, você perceberá que teve o bastante”. Ao olhar para a congregação que estava sob meu encargo, eu senti o peso dessa responsabilidade de prestar contas a Deus.

Essa lição continuou a vir a mim durante meu trabalho semanal ordinário. Ao pregar nos evangelhos, e depois nas epístolas, eu tive repetidas oportunidades de refinar noções acerca do amor cristão, indicando que, embora alguns textos de fato ensinem que nós cristãos devemos amar a todos (p. ex., 1Ts 3.12), muitos dos textos comumente usados para ensinar isso, na verdade, dizem respeito ao nosso amor uns pelos outros. Eu me lembro de pregar em Mateus 25, apontar que as instruções sobre dar copos de água fria eram para “estes meus pequeninos irmãos”, e, depois, uma pessoa vir a mim e dizer-me que eu havia arruinado o “versículo de sua vida”!

Para mim, contudo, todas as passagens sobre “uns aos outros” e “uns para com os outros” tornaram-se vivas e começaram a dar corpo às verdades teológicas que eu conhecia acerca do cuidado de Deus por Sua igreja. Ao pregar em Efésios 2-3, havia-se tornado claro para mim que a igreja é o centro do plano de Deus para exibir Sua sabedoria aos seres celestiais. Quando Paulo falou aos presbíteros de Éfeso, ele se referiu à igreja como algo que “Deus […] comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). E, é claro, no caminho de Damasco, quando anteriormente Saulo fora interrompido em sua rota de perseguição aos cristãos, o Cristo Ressurreto não perguntou a Saulo por que ele perseguia aqueles cristãos, ou mesmo a igreja; em vez disso, Cristo identificou-se de tal modo com Sua igreja que a acusação feita a Saulo é “por que me persegues?” (At 9.4). A igreja era claramente central no plano eterno de Deus, em Seu sacrifício, e em Suas preocupações contínuas.

Talvez tudo isso pareça mais como uma explanação em favor da centralidade da eclesiologia do que da igreja local, mas, ao pregar pela Bíblia semana após semana, o que é inegável a mim é que Tyndale fez uma boa decisão ao traduzir ecclesia por “congregação”! A importância da rede de relacionamentos que compõem uma igreja local é o palco no qual o nosso discipulado acontece. O amor é em grande medida local. E a congregação local, então, é o lugar que pretende exibir esse amor para que o mundo inteiro veja. Assim Jesus ensinou a seus discípulos em João 13.34-35: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”. Eu vi amigos e familiares separados de Cristo porque eles percebiam que esta ou aquela igreja local era um lugar tão terrível. E eu vi amigos e familiares virem a Cristo por verem exatamente esse amor que Jesus ensinou e viveu – o amor uns pelos outros, o tipo de amor abnegado que Ele mostrou – e sentirem a atração humana natural por ele. Assim, a congregação – a congregação como a câmara de ressonância da Palavra – se tornou mais central em meu entendimento do evangelismo e de como nós deveríamos orar e planejar nossa evangelização.

A congregação também se tornou mais central em meu entendimento de como nós devemos discernir a verdadeira conversão em outros, e como nós mesmos devemos ter segurança dela. Eu me lembro de ficar perplexo diante de 1João 4.20-21 ao preparar-me para pregar naquele texto: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê […]aquele que ama a Deus ame também a seu irmão”. Tiago 1 e 2 carregam a mesma mensagem. Esse amor não parece ser opcional.

Mais recentemente, essa consideração acerca da centralidade da congregação trouxe ao meu pensamento um novo respeito pela disciplina da igreja local – formativa e corretiva. Está claro que, se nós devemos depender uns dos outros em nossas congregações, deve haver disciplina como parte do discipulado. E se deve haver o tipo de disciplina que nós vemos no Novo Testamento, nós devemos conhecer os outros, estar comprometidos com eles, e deixar que eles nos conheçam. Nós devemos também ter algum encargo de autoridade. Todos os aspectos práticos do encargo de autoridade no casamento, no lar e na igreja são forjados no nível local. Deixar de compreender isso e assumir uma postura de desgosto e ressentimento para com a autoridade parece muito próximo àquilo tudo que a Queda representa. Por conseguinte, compreender isso parece muito próximo do coração da obra graciosa de Deus em restabelecer Seu relacionamento conosco – um relacionamento em que autoridade e amor andam juntos.

Em suma, eu vejo por que os cristãos no passado tratavam a falta de freqüência como um assunto tão importante. E penso que posso ver que danos começaram a ocorrer em tantos níveis quando começamos a assistir àquelas duas linhas da membresia e da freqüência divergirem. Deixar de conceber decisões acerca da freqüência na igreja como assuntos do interesse de toda a congregação e passar a vê-las simplesmente como assuntos privados – não da nossa conta – trouxe devastação para nossas congregações e para a vida de muitas pessoas que outroram as freqüentavam.

Agora eu tenho mais questões agitando minha mente, questões acerca de seminários e “líderes cristãos” que estão em um lugar diferente a cada semana, e pastores que não entendem a importância da congregação, e as pobres ovelhas que vagam, como muitos consumidores frustrados, de uma congregação para outra. Se Deus quiser, a década por vir será tão interessante quanto essa que acaba de passar.

Este artigo originalmente apareceu na edição de Janeiro-Fevereiro de 2002 da Modern Reformation, e foi revisada e republicada aqui com permissão. Modern Reformation pode ser encontrada online em www.modernreformation.org.